“A folha (tela) em branco é minha perdição” Entrevista com Nydia Bonetti

Marcelo Novaes


Marcelo Novaes - Nydia, aqui em São Paulo existiu uma casa famosa nos anos 80, chamada O engenheiro que virou suco. Quanto à engenheira Nydia foi espremida para exprimir-se em poesia?


Nydia Bonetti - Sou contemporânea do “engenheiro que virou suco”, Marcelo. Comigo aconteceu o inverso - a engenheira quase triturou a poeta, que já existia bem antes dela. Depois vivi numa espécie de exílio das letras, no meu mundinho geométrico e exato, por longos anos, só como leitora. Então um belo dia, como numa implosão, a casa caiu e nos escombros, entre poeira, cacos de vidro, ferros retorcidos, a poeta ressurge. Hoje as duas convivem pacificamente. Gosto de usar da matéria prima da engenheira nos meus poemas. A “casa” está de certa forma, sempre presente.   

Marcelo - Em outros termos [e nos mesmos termos] dizem alguns índios que “feridas são olhos: se não as temos, corremos o risco de chegarmos cegos ao Outro Mundo.” A poesia te ajuda a iluminar a chegada ao Mundo Vindouro com olhos bem abertos? 

Nydia- Creio que a poesia ao transcender o indivíduo e a temporalidade, também nos e(n)leva, na exata medida que nos humaniza. A crença do poeta já não importa – a poesia é a sua profissão de fé – se não na vida (aqui e além), na própria poesia. Eu creio: em Deus, na vida, no “ser” humano, no mundo vindouro e na poesia – que nos revela. Por mais que o poeta se esconda e use de vozes que não são suas, ela é delatora – ao ler o poema, deciframos o poeta.


Marcelo- O escuro e o silêncio são medos universais. Tememos tanto o terror quanto fugimos do tédio. Além disso, o escuro e o branco são parentes [no sentido de "ter um branco", de "dar um branco", de perder palavras e/ ou referências]. Fale-me da dor e da delícia da folha [ou tela] em branco. 

Nydia- A folha (tela) em branco é minha perdição. Meus olhos (ou alma, ou coração?) carecem das letras pretas sobre o fundo branco. Já tentei mudar mais de mil vezes as cores do blog, mas definitivamente, não consigo. Deve haver alguma explicação esta fixação pelo branco. Pode ser somente uma necessidade básica dos meus olhos míopes. Talvez faça parte do pacote da minha eterna busca por simplicidade e pelas singelezas. Sou fascinada pelo sumi-ê – mais uma vez a tinta preta e o traço breve sobre o fundo branco. Adoro as ilustrações monocromáticas e as fotos em preto e branco. Mas não sou assim tão radical como pode parecer Também gosto muito das letras brancas sobre o fundo preto. (risos) Talvez seja apenas uma questão de estética. Quanto às cores metafóricas, tenho medo sim, do branco da mente e do escuro da alma, lugares onde já estive e não gostei.  



Marcelo- Que informações contribuíram mais para formar a pessoa-poeta Nydia Bonetti?

Nydia - Dom ou construção? Como saber o que nos faz poetas e em que instante nos tornamos. Ainda menina me transformei numa devoradora de livros e a poesia logo se tornou minha dileta. Li tudo de Neruda, Pessoa, Drummond e Bandeira – os quatro pilares sobre os quais comecei a equilibrar minhas primeiras inseguras e frágeis construções poéticas. Depois, já na adolescência, veio a prosa e Graciliano Ramos foi uma influência arrasadora. Aqueles cenários de securas, carências, angustias e abandonos, me fizeram descobrir a existência de outros universos, muito além dos meus. As imagens foram tão marcantes, que até hoje, o deserto se impõe, em muitos dos meus poemas. Mas sem dúvida, minha grande referência desde sempre foi Drummond – melancólico e cético irônico e amargo, que com aquele olhar de desencanto – o mesmo, com que sempre olhei a vida – e o sentimento absurdo do tempo, me cativou de forma definitiva.           

Marcelo-Campinas não é propriamente uma cidade interiorana. Talvez seja “híbrida”. A educação italiana traz o calor e sabor de tudo o que é telúrico: terra, aconchego, vinho. Teus poemas às vezes são frutados, outras vezes têm o timbre de um vinho seco. Às vezes, a brisa de um pomar. Você teve uma educação com árvores e pé na terra? Quanto desses elementos de ascendência e infância habitam ou configuram tua paisagem poética?


 Nydia-J á não moro em Campinas há tempos, Marcelo. Mas ela é um pouco minha cidade, sim. Passei bons e belos anos ali. Nasci e retornei ao interior de São Paulo - Piracaia, uma cidade pequena, com pouco mais de 20.000 habitantes. Acho que não sobreviveria mais numa cidade grande. Nunca morei “na roça”, mas no interior estes universos se confundem. Abro a janela e dou de cara com uma montanha cheia de bois brancos pastando, pois a rua em que moro faz divisa com uma propriedade rural. De outra janela vejo a estrada que leva “à cidade grande”, mas rumo cada vez mais para o interior – de mim e da cidade. Meus amigos dizem que virei bicho-do-mato. Acho que eles têm razão.  Quanto ao lado “família italiana”, ele é mesmo forte. Pai e avô escultores, um tio ator, que declamava poesias – uma festa. O “nonno” além de esculpir, era cantor de óperas. Cresci ouvindo música clássica e “histórias” da arte e seus artistas, especialmente dos gênios italianos, claro. (risos). Só na música, o grande gênio não era italiano - era alemão e ficou surdo. Meu Deus! A máscara mortuária de Beethoven assombrou minha infância. Era a grande relíquia da família, além de um busto pequeno de mármore de Dante Alighieri. Tínhamos uma biblioteca pequena, mas com algumas obras essenciais. A Divina Comédia foi com certeza o primeiro livro que meus olhos infantis avistaram na estante. Era um livro enorme, imponente, letras douradas e vermelhas e apesar das proibições, adorávamos abri-lo para ver as figuras – que nos apavoravam. Outra obra importante foi a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, aquela para quem Drumonnd fez o poema Minha Biblioteca Verde, que considero um dos seus mais belos poemas, embora tão pouco conhecido. Provavelmente muito do meu fascínio pela literatura tenha vindo destes 24 volumes, já muito velhos quando eu os lia – uma raridade de valor inestimável, em todos os sentidos.  Quanto a estes lados que se alternam: vinho seco x fruta doce, acho que todos temos. Eu apenas os escancaro sem pudores. Contrariando “as regras”, não me preocupo em anular a minha própria voz na poesia. Ela convive bem com outras vozes que não são minhas. Acredito que mesmo na poesia confessional, há uma voz coletiva e universal que fala. E o pé no chão, o quintal, o pomar, o rio, os lugares da infância, é para onde vou, quando preciso me reabastecer – na vida e nas letras. Costumo dizer que a infância não é um tempo – é um lugar – no meu caso, um lugar onde há um sol que nunca se põe. Muitos não têm este refúgio da infância feliz.  

Marcelo - Fazer poesia sobre o fazer poético é uma inevitabilidade ou é tautologia?

Nydia- Acho que ambos, Marcelo. É quase um vício, mas não é intencional. Nunca escolho o tema e depois escrevo. Acho que a poesia nos procura - passa por nós e a capturamos – ou não. Mas a poesia metalinguística está presente na obra de quase todos os poetas. São inquietações comuns: questionar os limites da linguagem literária, seu destino neste tempo complexo que vivemos. Costumamos indagar sobre nossa “arte”, sobre seu poder transformador, sobre como ela surge, os valores estéticos, enfim, alguns transformam estes questionamentos em teses, teorias, verdadeiros tratados, outros, como eu, transforma tudo isso em versos. Aliás, passo por um período de grandes questionamentos sobre a poesia – especialmente a minha - talvez por isso fale tanto dela. 

Marcelo- De onde sopra o vento que te alenta as letras? Que autores infundem ânimo e fôlego a poeta Nydia Bonetti?


Nydia- O vento que me alenta vem da própria poesia. Confesso que ando preguiçosa para a prosa e praticamente só leio poesia ultimamente. Não sei ainda exatamente por que, mas os poetas russos e cubanos se tornaram essenciais para mim - me arrebatam. A poesia oriental me encanta e estou fascinada pela poesia árabe. Também estou redescobrindo alguns clássicos essenciais, que acabei não lendo como deveria. Quanto aos poetas de língua portuguesa, claro, leio muito e este “boom” da poesia, proporcionado pela internet me deixa extremamente feliz e otimista. Todo dia descubro novos blogs, alguns com escritores muito jovens, uma geração que me impressiona pela maturidade e pela qualidade estética e dos textos. Sou leitora assídua das revistas eletrônicas de literatura, que se especializam cada vez mais, fazendo uso de todas as ferramentas que a tecnologia permite o que considero um grande passo para a divulgação e democratização da cultura e da literatura. Tenho a sensação de que uma nova literatura está sendo desenhado no cenário nacional, Marcelo e com ela, uma nova geração de poetas deve “vir à luz”. Tomara.

 

Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Mantém o blog L o n g i t u d e s (http://nydiabonetti.blogspot.com) Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Faz parte da coletânea QASAÊD ILA FALASTIN (Poemas para a Palestina), Selo ZUNAI e da Antologia Digital Vinagre - Uma antologia dos poetas neobarrocos.Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker.Também em 2012, publicada pelo Projeto Instante Estante, de incentivo à leitura, curadoria de Sandra Santos, Castelinho Edições. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajéuBR, numa iniciativa conjunta com o Portal Cronópios. Lançou oficialmente o Sumi-ê em janeiro de 2014, à venda no catálogo da Editora Patuá


Marcelo Novaes nasceu em São Paulo Considera-se um psicanalista que escreve. Estudou música: Violão clássico e teoria musical. Publicou Cidade de Atys (Ateliê Editorial, 1998).  Pretende publicar apenas mais dois livros, um ensaio clínico (“Olho Que Nos Olha Nos Olhos”) e um livro de poemas e prosa poética (“A Franja Branca da Luz”). Atualmente mantém seis blogs na rede. Veja mais sobre ele
http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/
E-mail: marcelodenovaes@yahoo.com.br 

 

 

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