O “Nu descendo a escada”, de Duchamp: o problema do fluxo na pintura

Igor Bezerra


A realidade é o que há. E o que há, há com fluxo. O devir é parte constituinte e inegável da realidade não só das coisas como também nossa. Portanto, ao se pretender falar da realidade, não como coisa em si, pois não há, mas como o que é, o que há e o que se dá e acontece, não podemos não podemos fazê-lo sem tratar do fluxo, do devir. Assim, depara-se a pintura com seu grande problema: como representar o fluxo da realidade? Como um suporte estático pode sustentar o devir de tudo?
O início da Renascença marca o início da preocupação com a realidade na pintura: os estudos de anatomia e da descoberta da perspectiva geométrica são os impulsionadores dos artistas neste sentido. Contudo, com todo esse ganho, a pintura não consegue captar o fluxo da realidade. Talvez o ganho da unidade (ou arquitetura) do quadro, como vemos em Rafael, empate mais ainda a representação do devir da natureza. Isso se mostra complicado quando de pensa na relação título e obra, ou seja: o que se diz representar e o que realmente está representado. Ora, na impossibilidade de pintar o fluxo, um quadro desta concepção nunca poderá ser chamado de “o nascimento do menino Jesus”, mas, no máximo, “o menino Jesus recém-nascido”, pois não temos de todo a representação de todo o processo do parto, mas apenas o resultado que se deu após este. E isto é o que se segue até o Impressionismo, por mais que Romantismo tenha dramaticidade e mais vigor na ação.
Por sua vez, o Impressionismo, ao eleger como seu único tema a luz, conseguirá algum avanço neste sentido: Montet, ao se preocupar em pintar a Catedral de Rouen em diferentes horas do dia, consegue, se nos debruçarmos sobre todo o conjunto, representar a mudança de luz, e, portanto, do tempo, sob e através da Catedral. Entretanto, tal feito só é possível se considerarmos todo o grupo de peças; e imagino que Monet não tenha pensado de forma diferente. No entanto, ainda assim, a representação do devir só é possível com várias pescas, e um único quadro é impotente em cumprir tal tarefa. Os demais impressionistas conseguem ganhar mais debilidade em relação ao Romantismo – Renoir e Degas, por exemplo.
No Pós-Impressionismo temos outro ganho neste sentido: Van Gogh, por se turno, passa a pintar o vento, e talvez seja o único a fazê-lo. Assim temos um movimento mais dinâmico que acrescenta algo na representação do fluxo. A diferença entre Monetr e Van Gogh é que o primeiro representa o devir pelo tempo e o segundo pelo espaço – essas duas categorias tão complicadas na filosofia. Gauguin, Cézanne e Much são um atraso nesse tratamento. O movimento decadentista, a Art Nouveau mais ainda.
Com o modernismo ganhamos mais e, como veremos atingimos esse desejo. Mas o Fauvismo e o Expressionismo Alemão pouco têm que ver com isso. É através do Cubismo e do Futurismo, juntos, que temos uma expressão bem acabada da representação do fluxo. No entanto, é necessária ainda uma distinção.
É impossível abarcar toda a vida, toda a realidade, em uma obra de arte; por outro lado, também não se pode fugir absolutamente da natureza. Assim, qualquer realismo ou abstracionismo absolutos não são concebíveis. Para isso nos é muito cara a reflexão de Camus – a consideração desta em plenitude nunca se dera devido, justamente, ao devir: se a vida fosse estática, consideraríamos totalmente. Desta forma, a arte, toda e qualquer, só é possível enquanto recorte de vida.
Voltando às vanguardas, o Cubismo pouco ou nada tem que ver com o fluxo; antes, se preocupa em representar todas as facetas de um objeto: é a tentativa de demonstrar todas as perspectivas, o que se dá no Cubismo Analítico, nesta profunda relação com a fenomenologia husserliana no que diz respeito à composição de ontologias regionais, mas este é tema para outro local.
O Futurismo é a arte de vanguarda que trata do movimento par excelance. Contudo, pouco se vê de devir nas quadros de Giacomo Bala. É só na junção do Cubismo Analítico com o Futurismo que temos a expressão mais bem acabada do fluxo na pintura: o “Nu descendo a escada”, de Marcel Duchamp.
Duchamp, na referida obra, uma Cubismo Analítico e Futurismo – daí a divergência de opiniões – para compor uma perca que representa um corpo nu descendo uma escada. Primeiramente Duchamp elege um tema, ou seja, faz um recorte de vida, o que é puramente normal e foi feito por toda a tradição. O fato novo é que, dentro da eleição deste tema, ele representa o fluxo perfeitamente e de forma nunca dantes vista. Duchamp é analítico não com a coisa representada, mas com a ação que elege como tema de sua obra. Assim, não desdobra o corpo nu que pinta, mas a ação que esse corpo faz – pinta todos os estágios do “descer a escada”. É futurista enquanto elege o movimento com tema, mas ultrapassa o estático ao conseguir representar o fluxo, o devir da ação: e o faz ao pintar todos os movimentos de quem desce uma escada, de maneira seguida, não justaposta ou sobreposta; posta em sequencia, como realmente a ação acontece.
Duchamp faz o que se vê em um vídeo, no cinema. Contudo, a pintura é arte da fixidez: o que Duchamp faz é da natureza de toda a pintura, de toda a arte: eternizar o efêmero.

Igor Bezerra natural da Paraíba era artista plástico e ensaísta. Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. Morreu no dia 16 de maio de 2009, aos 22 anos em Salamanca-Espanha onde estava estudando. Escrevia no seu blog:

http://estroinaesuperfluo.blogspot.com.br/

 

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