“Captar a beleza em versos,construir o encanto ser poeta não é nada mais que isto”.

Selmo Vasconcellos


Bárbara Lia nasceu em Assai e passou a infância em Peabiru que considera o seu lugar. Publicou poemas em jornais literários como Rascunho, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro. Na Internet, tem textos publicados na Zunái, Cronópios, Blocosonline, Editora Ala de Cuervo, Musa Rara entre outros. Bárbara foi por duas vezes finalista do Prêmio SESC de Literatura: em 2004 com o romance Cereja & Blues (inédito em livro) e, em 2005, com o romance Solidão Calcinada (publicado em 2008 pela Secretaria de Estado da Cultura) e terceira colocada em 2006 no Concurso Helena Kolody da Secretaria da Cultura do Estado do Paraná, com o poema – Águas de Alexandria. Neste mesmo concurso recebeu Menção Honrosa em 2007, com a poesia – Os meninos e eu. Foi ainda Menção Honrosa em 2009 no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio com o conto – Mulher na Árvore e uma das vencedoras do I Concurso – Contos Grotescos – Prêmio Edgar Alan Poe. Ao lado de Affonso Romano de Sant'Anna, Augusto de Campos, Claudio Daniel, Márcio-André entre outros importantes autores da atualidade, faz parte do livro de ensaios O que é poesia? (Ed. Confraria do Vento), organizada por Edson Cruz, poeta criador e editor do portal de Literatura Musa Rara. Publicou quatro livros de poesia (O sorriso de Leonardo, Noir, O sal das rosas e A última chuva) e um romance (Solidão Calcinada). Integra, entre outras, as Antologias: H2Horas (Cronópios/Dulcinéia Catadora), O Melhor da Festa 3 (Festipoa/Casa Verde Ed.), Amar Verbo Atemporal (Editora Rocco) e Arqueologia da Palavra e Anatomia da Língua (Literatas - Maputo). Tem publicados os livros de Poesia: O sorriso de Leonardo, Noir, O sal das rosas, A última chuva, Tem um pássaro cantando dentro de mim e A flor dentro da árvore e os  romances: Solidão Calcinada e Constelação de Ossos, e Paraísos de Pedra (contos). Reuniu parte de sua produção poética em um projeto de livros artesanais que denominou 21 gramas.  Esta entrevista foi publicada inicialmente no jornal Alto Madeira de Rondônia e na pagina Momento Litero-Cultural no dia 10 de março de 2010.

http://www.selmovasconcellos.com.br/colunas/entrevistas/barbara-lia-entrevista/

 

 


Selmo Vasconcellos - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

Bárbara Lia - Tenho uma casa, três filhos e um neto. Gosto de toda Arte. Ir ao Museu, vez por outra assistir uma Peça de Teatro. Quando vejo TV gosto dos documentários – e também de séries policiais. Amo música. Quero ter mais tempo para ouvir música e ler os livros que ainda não li. Há alguns anos me aposentei. Mas, passei a vida toda trabalhando, fui comerciária, bancária, quando comecei a escrever para valer optei por lecionar História pra me desvincular do ambiente burocrático que é maçante e nada poético. Agora a escrita é o meu trabalho e nas horas mais amenas gosto de conviver mais tempo com a família e com raros amados e especiais amigos. 

Selmo - Como surgiu seu interesse literário?

Bárbara - Quando era menina eu ficava na Biblioteca do meu avô abismada e mergulhada em História. Na verdade minha paixão na infância se chamava – O Tesouro da Juventude. Eu devorava aqueles volumes imensos encapados de um cinza claro. Sempre associei o cinza ao reino do imaginário, esta fumaça rala que a gente atravessa pra outro reino. Metáfora de um tempo de descoberta, que ia além das narrativas dos contos, poemas e lendas que eu ouvia em casa. Penso que meu interesse surgiu neste tempo e foi evoluindo em cada descoberta e a cada livro. Este pensamento – quero ser escritora – foi em uma daquelas tardes à sombra de uma frondosa árvore – Santa Bárbara – que assinalei com força esta idéia. Demorei a cumprir este vaticínio. O que assinalei pra mim em alguma tarde de outono. Sempre busquei os livros, passei a vida inteira lendo, com aquele sonho pendurado em algum lugar. Pude passar da ideia para a prática muito tempo depois. Aos 36 anos comecei a escrever com este –desejo- de escritor. Apenas aos 49 lancei meu primeiro livro. 

Selmo - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do país?

Bárbara - Até este momento publiquei quatro livros de poesias e um romance. Todos aqui no Brasil. O sorriso de Leonardo, em 2004. Noir, em 2006. O sal das rosas e A última chuva em 2007. Todos estes são de poesia. O romance Solidão Calcinada em 2008, publicado pela Secretaria da Cultura do Estado do Paraná. Estou com um projeto meu – uma editora artesanal– um registro de minha poesia, o desejo de deixar organizado em pequenos livros os poemas que, acredito, merecem um espaço no livro. Editora 21 gramas – meu projeto. A primeira coleção – Ouro & Azul – já está sendo montada – overdose de poesia nos títulos: Adamare, Chá para as borboletas, Cigarras no Apocalipse, Noon, Nyx Nua, O rasurado azul de Paria, Para Camille, com uma flor de pedra

Selmo - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?

Bárbara - A poesia está em toda parte. Quem a vê? Por muito tempo eu me senti estranha. Estrangeira mesmo, que é o significado do meu nome. Passei a vida mergulhada em poesia, querendo colhê-la a cada instante e em cada espaço, acontecimento, trocas e tudo o que era poético. Fui confundida por tanta gente. Fui dissecada desde a infância como aquela pessoa que difere. Sensível, minha mãe dizia. Atribuíam minha alma poeta à fragilidade de menina que trazia os resquícios da poliomielite. Na Faculdade um amigo dizia – você é uma menina “cabeça”. Na falta de entendimento e na impossibilidade de tocar minha essência, alguns diziam que eu era louca. Cresci mergulhada entre o verbo e o real, poemas e coisas que meu pai dizia que entraram em minhas veias junto com a rotina. Eu era alguém que respirava poesia e ela começou a fazer parte de mim, pois encontrou ressonância. Mas, eu não captava isto em palavras. Sei que meus pensamentos poéticos mais belos e puros repousam na estrela que eu seguia a estrela da tarde. Nunca anotei o encanto de me descobrir mulher, de buscar o mundo com fúria dantesca. Confesso que vivi, eu poderia roubar este título de Neruda. O que me faz escrever poesia é o excesso de vida que é matéria de minha alma. Ela foi gastando com o tempo, eu busco recuperar, com alegria constato que existe que as desesperanças não mataram totalmente a essência primeira. O impacto de estar viva e compreender isto é o que me levou a escrever poesias.

Selmo - Quais os escritores que você admira ?

Bárbara - Gosto dos grandes poetas, pois eles são o oxigênio. Quando falta o ar você pega um livro e lê – Fernando Pessoa já me salvou muitas vezes. Admiro Hilda Hilst e Clarice Lispector. Jorge Luis Borges é insuperável. Gosto de descobrir autores e fiquei muito feliz quando li Gonçalo Tavares e Mia Couto. Na outra ponta, gosto dos malditos. Por isto me identifico com Jean Genêt e com os poetas da geração beat. Gosto de ler Fante. Na verdade é uma balança que fica entre o erudito belo com vida dentro, como Borges e Hilda Hilst; ou o visceral pendendo ao estilo Bukowski. Há alguns anos fiz um plano de leitura com meu amigo Pedro Carrano. Começamos com Dom Quixote e fomos seguindo um traçado. Foi quando me aventurei a ler A Divina Comédia. Iniciamos com os clássicos e na sequencia a aurora da Literatura aqui no Brasil, foi muito lindo ler o Padre Antonio Vieira, Gregório de Matos e o belo romance de Ana Miranda – Boca do Inferno, depois de Boca do Inferno li todos os romances de Ana Miranda. O Brasil tem uma dívida com seus escritores de verdade. Ana Miranda não tem o destaque que merece. O Brasil tem preconceitos, teve com Fausto Wolff que para mim é um ícone da literatura. Atualmente estou lendo Bom Crioulo, de Adolfo Caminha. Estas escritas que lançam uma luz sobre o que ninguém quer ver não são muito alardeadas. Esta censura tosca que faz chover sobre nós alguns livros inócuos e dá espaço para o politicamente correto empobrece a Literatura. Sei que é impossível dizer tudo que li em estado de admiração. Vez por outra recordo como um flash de luz um poema de Eugenio Montale, toda a trajetória bela de Maiakovski e fica evocando versos, lembrando os poemas de Sylvia Plath. O que me capturou mais recentemente foi a poesia de Emily Dickinson. Incrível. Tudo isto é assombro. 

Selmo - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

Bárbara - Ser poeta já é um incentivo. Captar a beleza em versos, construir o encanto - ser poeta não é nada mais que isto. Penso sempre em algo que ouvi em uma entrevista de um poeta daqui que morreu jovem – Rollo de Resende: A função do poeta termina quando ele termina de escrever o poema. Este é o êxtase. Esta é a beleza. O que acontece depois é luz oblíqua que vez por outra brilha em páginas e nos deixa sem jeito – para quem é tímida como eu sou – quando alguém entra em delírio diante de um poema. Não há uma contrapartida. Os poetas não tem espaço na grande mídia e não ganham dinheiro com isto. A poesia ainda é o grande segredo que tantos tentam desvendar. O que é poesia? O Edson Cruz fez esta pergunta e cada um de nós – poetas – tinha uma resposta. O que posso dizer a um iniciante (me considero iniciante na arte da escrita) é seguir o fio da sua criação. Ser livre pra encontrar sua voz, não buscar ser uma réplica de ninguém. Ser ele mesmo, ler os bons poetas, dizer a verdade que grita dentro da gente. E ninguém mais ouve a vida em uma voltagem tão alta quanto o poeta. Somos – realmente – a antena da raça.



POESIAS 

ROSA CHÁ AZUL ANIL 

Alma rosa chá. 
Vestida de rosa chá. 
Na casa rosa areia. 

Leva - enquanto passeia - 
um oceano de espantos 
nas mãos: 

Cinzas de rosas 
no ar do quarto do avô 
morto. 

Mistério ácido na boca 
- sabor do fruto vítreo 
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha 
- mínimas estrelas - 
nas mãos. 

Céu rosáceo de Dali 
desce ao chão 
e incendeia 
o futuro lilás: 

rosa chá + azul anil 

Linhas do destino 
emaranhadas 
já no ventre 
de nossas mães.

E apenas agora 
o homem sagrado 
envolto em acordes 
de estrelas no cio. 

- meu azul demorado!

CHÁ PARA AS BORBOLETAS

Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel cinza, 
onde trafego dias.

Penso na infância, sombra 
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

- do livro - Chá para as borboletas (ed. 21 gramas/2010)

Dans l’air

Tínhamos a mesma idade 
Quando vimos o mar 
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto 
Pisamos telhados 
Ao invés do chão

Por isto 
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto 
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.

(do livro - O rasurado azul de Paris - ed. 21gramas/2010) 

CIGARRAS NO APOCALIPSE

Quando o poema emerge,
Estridente,
Emudece o verão
Escurece a primavera
Incendeia o outono
Poetas são cigarras
No apocalipse
Sempiterno som
Canto que incomoda

Sacode as esfinges
As filosofias vãs
Canto ecoa
Em muralhas pagãs
Invade corredores
Cola ao som o hortelã
Das festas de antes
Arranca lágrimas cinzas
No silêncio laranja
De Guantánamo

O som ardido trinca o sol
Escorre gema zelosa
Na chaga das crianças
Da África inteira
Canta a primavera afogada
Da vida ceifada.

A cigarra segue
No apocalipse sem volta
Anoitece areias de Fallujah
Todas as ruas da Faixa de Gaza

Cigarras no apocalipse
São poetas em desalinho
Gestados no ventre escuro
Ninfas subterrâneas
Emergem em canto e vôo
Ao som da trombeta
De um anjo sem olhos.

(do livro - Cigarras no apocalipse - ed. 21gramas/2010) 

OS MENINOS E EU

Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.

Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.

Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.

Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.

Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara

Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas

Tão tristes os meninos
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
com café.

Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.

Eu,
desenho gravuras 
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.

Não atravesso 
o vidro frio do templo
moderno 
- shopping center –

Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo

(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)

Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.

Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul 
no “mar/
belo mar selvagem…”

 

Selmo Vasconcellos nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro, RJ e reside em Porto Velho, RO. Administrador, editor de cultura, divulgador cultural e escritor (poesias, contos e crônicas). Obras publicadas (poesia e prosa): REVER VERSO INVERSO (1991), NICTÊMERO (1993), POMO DE DISCÓRDIA (1994), RESQUÍCIOS PONDERADOS (1996) e LEONARDO, MEU NETO (antologia, 2004). Livretos independentes (poesia): MORDE & ASSOPRA e suas causas internas e externas (1999), DESABAFOS em memória de ROY ORBISON (2003), Revista Antológica “Membros da Galeria dos Amigos do Lítero Cultural” (2004). Livretos de poesias traduzidos em francês, inglês, alemão, italiano, japonês, russo, grego, romeno, macedônico, esperanto e espanhol. 38 Prêmios Nacionais (RJ, GO, SP, DF, SE, MG e RO) e19 Prêmios Internacionais (EUA, Grécia, Espanha, Canadá e China). Membro de 21 Entidades Culturais (Brasil, Portugal, EUA, Espanha e Grécia). Participação em Periódicos Literários (Brasil, EUA, França, Bélgica, Grécia, China, Itália, Venezuela, Romênia, Macedônia e Espanha). Editor da página literária impressa e semanal LÍTERO CULTURAL / jornal Alto Madeira, Porto Velho, RO, desde 15 de agosto de 1991 com cerca de 2600 colaboradores em 37 países. Suas poesias estão traduzidas para o francês, inglês, alemão, italiano, japonês, russo, grego e chinês. 

Colabora nos sites:

 http://orebate-selmovasconcellos.blogspot.com

 www.jornalorebate.com

 

 

 

  • Compartilhe:
  •    
  •    
  •